Teatro na Educação é um blog da APROTED - Associação de Professores de Teatro Educação. Pretende-se trocar ideias sobre o papel do teatro/expressão dramática na educação. Procura-se, ainda, fazer uma análise da "evolução" do teatro/expressão dramática como disciplina curricular do Sistema Educativo Português, bem como da situação profissional e habilitações dos seus docentes. Experiências, críticas, ideias, etc., são bem vindas. mail:teatronaeducacao@gmail.com
13.2.06
APROTED - Carta de Princípios
1. Lutar pela implementação do Teatro Educação/Expressão Dramática, como disciplina curricular, em todos os ciclos e níveis de ensino do Sistema Educativo Português.
2. Promover iniciativas com o objectivo de divulgar e demonstrar as potencialidades do Teatro Educação/Expressão Dramática enquanto instrumento pedagógico-educativo fundamental para a formação do aluno.
3. Eleger o Teatro Educação/Expressão Dramática como uma disciplina com características técnico-artísticas e pedagógicas próprias, que a diferenciam de outras áreas teatrais, e que exige uma formação académica específica.
4. Promover a dignificação do estatuto do professor de Teatro Educação/Expressão Dramática no meio escolar, exigindo do Ministério da Educação a criação de um Grupo Disciplinar de Teatro Educação que enquadre os docentes ao nível das habilitações académicas, competências técnico-artísticas e pedagógicas, exigidas para leccionar, bem como da progressão na carreira, à semelhança do que acontece com os docentes das demais áreas disciplinares.
5. Lutar para que o trabalho de qualidade desenvolvido na área do Teatro Educação, ao longo de muitos anos, por professores dos Quadros de Escola, seja avaliado e reconhecido pelo M. E., permitindo a estes docentes, se o desejarem, a transição para o Grupo Disciplina de Teatro Educação.
6. Em prol da qualidade do ensino e da justiça na contratação de docentes, defender a criação de um Concurso Nacional para contratação de professores das disciplinas curriculares da área de Teatro Educação, que estabeleça critérios específicos para a graduação dos professores candidatos, dando prioridade aos que tenham formação académica de base na área de Teatro Educação e respectiva profissionalização através de Estágio Pedagógico em estabelecimento de ensino do Ministério da Educação.
7. Procurar que todos horários das disciplinas da área de Teatro Educação sejam sujeitos a concurso público, impedindo que o teatro nas escolas continue a ser leccionado por “curiosos” ou seja usado como mero expediente de docentes de outras áreas disciplinares alcançarem tempo de serviço, ou da administração escolar preencher horários “zero”, num manifesto desprezo e subalternização da arte na educação.
8. Lutar pela extinção dos concursos por Oferta de Escola para a contratação de docentes da área de Teatro Educação, vistos os critérios exigidos pela generalidade dos órgãos de gestão, serem arbitrários, contraditórios, injustos, e protegerem interesses pessoais, em vez de proporcionarem a escolha dos docentes com habilitação mais apropriada para a leccionação da disciplina.
9. Sensibilizar os órgãos de gestão das escolas, enquanto não for criado um Concurso Nacional ou definidos critérios específicos pelo M.E, para seguirem pressupostos pedagógicos e defenderem a qualidade do ensino, dando prioridade na contratação aos candidatos que apresentam qualificações académicas de base na área do Teatro Educação e respectiva profissionalização através de Estágio Pedagógico.
10. Denunciar publicamente e incentivar os prejudicados a impugnar os concursos em que professores com habilitação profissional na área do Teatro Educação são preteridos por professores sem qualificações ou com qualificações inferiores, ou no caso dos horários serem atribuídos sem concurso público.
11. Fazer um levantamento das escolas portuguesas que ofereçam a disciplina de Oficina de Teatro do 3º Ciclo do E. Básico, o Curso Tecnológico de Acção Social, que desenvolvam projectos próprios: teatrotecas, clubes de teatro, disciplina de oferta própria, bem como as escolas que regularmente ofereciam a OED do Secundário, antes da sua extinção, de modo a possibilitar uma colaboração mais eficaz com essas escolas.
12. Incentivar as escolas que não têm oferta artística na área do Teatro Educação a disponibilizá-la aos seus alunos, e às que a têm de forma reduzida, a intensificá-la.
13. Sensibilizar o M.E. e os órgãos de gestão das escolas para, progressivamente, irem construindo ou afectando salas, com carácter definitivo, para a prática do Teatro Educação, de modo que seja possível leccionar a disciplina com as condições mínimas exigíveis.
14. Divulgar a oferta formativa, de nível académico, na área do Teatro Educação, em Portugal e no estrangeiro.
15. Estabelecer contacto com universidades e outros estabelecimentos de ensino superior ou politécnico portugueses de forma a aumentar a oferta e estabelecer currículos mínimos comuns para os cursos da área de Teatro Educação, quer ao nível técnico-artístico, quer pedagógico.
16. Incentivar, junto dos responsáveis dos cursos de Teatro Educação, a reflexão e investigação sobre esta área específica, bem como a divulgação dos trabalhos de qualidade realizados nestas instituições.
17. Exigir aos responsáveis dos cursos de Teatro Educação e aos reitores das respectivas universidades que assumam as suas responsabilidades e pressionem o Ministério da Educação no sentido de serem dadas as mesmas oportunidades aos professores formados nestes cursos, relativamente a todos os outros docentes saídos dos diversos cursos da via ensino.
18. Promover e enaltecer as práticas do Teatro Educação/Expressão Dramática em projectos de educação, animação e integração sócio-cultural, nomeadamente junto das câmaras municipais, juntas de freguesia, associações culturais e de moradores, Ministério da Cultura, Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, bem como dos governos das regiões autónomas dos Açores e da Madeira ou outras que venham a ser constituídas.
19. Estabelecer conversações com as associações representativas dos cidadãos com deficiência e com as instituições que colaboram na sua formação, de forma que o Teatro Educação possa contribuir para a integração social e profissional dessas pessoas.
20. Organizar, promover e participar em encontros de professores de Teatro Educação.
21. Estabelecer intercâmbios com outras associações congéneres, portuguesas ou estrangeiras, que se dediquem à divulgação, incremento e investigação das práticas do Teatro Educação.
22. Apoiar a criação e divulgar o trabalho de grupos, companhias ou projectos de intervenção direccionados para o Teatro Educação.
23. Divulgar ofertas de trabalho, concursos do M. E. ou outros, aos seus associados.
24. Criar estruturas e as parcerias necessárias para a publicação, periódica, de uma revista sob a temática Teatro Educação, bem como apoiar a publicação, por parte de associados, de trabalhos relevantes nesta área.
25. Divulgar as actividades da APROTED, bem como, artigos, trabalhos, obras, encontros, conferências, cursos, acções de formação, entre outros, relacionados com o Teatro Educação através de uma página própria na Internet.
COMENTÁRIOS
Foi com satisfação e, confesso, alguma surpresa que vi chegar à escola um professor contratado para leccionar a opção de teatro do nono ano.
Já lá vão muitos anos...
Satisfação porque havia aquela vontade de articular o texto com a representação (coisas de professores de português...), surpresa por ver que afinal a acção do "professor especialista" levava os "meninos" para outros voos mais criativos, levava-os a uma outra forma de ver as coisas e tudo isto, pasme-se (pasmava-me eu), pela via do jogo, do lúdico.
Fui levada a questionar tudo o que fizera antes na sala de aula, a querer perceber o porquê de tudo aquilo...
Depois assisti à evolução natural, num trabalho mais aprofundado em regime de Oficinas de Expressão Dramática. Quando era possível pedia ao colega para assistir às suas aulas e ele dizia: - Só se participares.
E participei ao lado dos alunos. Era divertido mas era, sobretudo, muito sério... brincar, jogar é muito importante.
Mas os nossos governantes não percebem. Nunca perceberam.
Foi com satisfação que vos descobri na internet. E foi com mágoa que percebi que as Oficinas de Expressão Dramática do secundário já morreram. Que os professores especialistas continuam a trabalhar por contrato...
Que voltámos para trás.
que voltámos ao tempo do professor faz-tudo mesmo que não saiba fazer.
O faz-tudo / faz-de-conta.
Muita sorte para o vosso projecto!...
Maria Adelaide ex professora de português-francês (reformada)
TEATRO na EDUCAÇÃO - Firmino Bernardo
Garrett dizia que “o teatro é um excelente meio de civilização, mas não prospera onde não a há”. A primeira parte da frase mostra-nos que o Teatro deveria ter um papel privilegiado nas escolas. A segunda parte mostra-nos por que é que o Ministério da Educação se esquece dele.Acabada a Expressão Dramática no Ensino Secundário, resta-nos a Oficina de Teatro no 3º Ciclo. Para quem não sabe como funciona, nada melhor que fazer um resumo.
No 3º Ciclo, as escolas têm de ter uma disciplina na área artística, que pode ser Dança, Música, Teatro ou “outra qualquer”. A grande maioria das escolas opta por “outra qualquer”. Conheço até uma escola que optou por uma disciplina igual à Educação Visual (que os alunos já têm), mas com outro nome, para o descaramento não ser muito grande.
Felizmente, há escolas com outras opções. Seja como for, a disciplina escolhida é semestral, leccionada uma vez por semana. Para a equipa do Ministério da Educação, é mais do que suficiente. Na cabeça deles, em Dança, aprende-se umas coreografias a partir dos videoclips dos D’ ZRT, em Música, aprende-se a cantar o “Atirei o Pau ao Gato” e em teatro, dá-se uns saltos, veste-se umas fatiotas e debita-se umas frases.
Para as escolas que optam por Oficina de Teatro, como é que o Ministério escolhe os professores? É simples. Escolhe os professores efectivos, de qualquer disciplina, com horário zero ou incompleto. Se tiver feito umas coisitas lá no grupo amador da Casa do Povo, está mais que apto para ser o “ensaiador” dos putos. Procura-se uns exercícios nuns livritos, uns textos para uma récita, umas fatiotas para a festa de Natal e completa-se mais um horário.
Mas, se tiver mesmo que ser, se não houver nenhuma alternativa, contrata-se um professor especializado, só por um ano. Mas, atenção. A escola só pode abrir o concurso depois de pedir autorização ao Sr. Secretário de Estado, que isso da Autonomia é muito bonito, mas é só para o que convém. Claro que o Senhor Secretário de Estado não autoriza o concurso cedo demais, porque é necessário dar a entender que o caso tem de ser estudado à exaustão e, se por acaso os alunos só começarem a ter a disciplina em Novembro, sempre são dois meses de salário que o Estado poupa.
Alguns destes professores contratados até têm uma licenciatura específica para o efeito, com formação teatral e formação pedagógica, são profissionalizados e tudo, os pobrezinhos. Não têm é grupo de docência, senão até se corria o risco de terem um concurso normal e ficarem à frente de quem não tem formação, e isso o Ministério não pode permitir, que o Estado está gordo e na Educação é que é preciso poupar.
Entre 6 a 10 de Março, no Centro Cultural de Belém, decorrerá uma conferência Internacional sobre a Educação Artística, organizada pela UNESCO. Não faltarão as Ministras da Educação e da Cultura, com discursos vagos, mas bonitos, fingindo-se muito interessadas com estas questões. Não faltarão aplausos acríticos. Os mais atentos notarão que elas não fazem ideia do que é a Educação Artística, o que de resto até é coerente com a ignorância noutros campos dos respectivos ministérios.
No fundo, temos os políticos que merecemos. Habituámo-los de tal forma a receber aplausos quando anunciam medidas que nem sentem necessidade de as pôr em prática. Talvez devêssemos mudar de atitude. Da próxima vez que ouvirmos um político anunciar intenções, em vez de aplaudirmos, dizemos em coro: “E está à espera de quê?”.
Firmino Bernardo
educar... PARA AS ARTES YEEEEE! in Canalizador das Almas
Tomamos conhecimento (através dos pasquins do burgo) de que em Lisboa se realizou a 1.ª Conferência Mundial sobre Educação Artística, organizada pela UNESCO. Disseram eles que para um debate (caloroso) sobre a importância da educação na área das Artes.Essa Conferência Mundial sobre Educação Artística - Centro Cultural de Belém - conta, ou contou, com a participação de professores, investigadores e "peritos ligados ao ensino das práticas artísticas" (vejam só... tanto perito neste país e ninguém sabia), como artes visuais, performativas (... e a performance chegou ao ensino no país do sr. silva?), dança, música, teatro, escrita criativa e poesia (oh la la). A iniciativa pretendia (neste país onde se acabou com tudo o que é arte no ensino) promover o papel das Artes no desenvolvimento humano (vejam só), nomeadamente a criatividade no ensino das práticas artísticas nas escolas (espantemo-nos todos), sobretudo aos alunos mais desfavorecidos social e economicamente (oh!...). Ficamos a saber que este molhinho de boas intenções culturais e artísticas (e não só) dos organizadores só pode ficar por ali (pelo CCB - para bem dos peritos, na escola é uma maçada). e os senhores que frequentaram o evento e deram muitas opiniões (para além de se pavonearem pelos corredores) foram precisamente os mesmos que acharam que era o momento de acabar com as oficinas de artes e de expressão dramática no ensino secundário. Ora bem:... Num país onde o ensino artístico é um enorme zero, onde os professores com formação artística não têm espaço na escola, onde o ensino secundário é um deserto, sem uma única disciplina de educação estética, e onde, qualquer professor com horário zero pode leccionar a nova disciplina de teatro no ensino básico (para quê formação artística, vai-se a uma conferência e pronto. já está)... estas conferências sobre arte na educação devem dar muita tusa...(?)
8.2.06
O Ensino Artístico em Portugal: sim.não!...talvez... a ver se...pois...como?... Manuel Almeida e Sousa
é assim.
e
as coisas seguem ao sabor dos ventos.
nada se decide.
o problema do ensino artístico no nosso país pode ser resumido precisamente assim:
- sim. não!... talvez... a ver se... pois... como?...
e
com o passar do tempo, os projectos e experiências mais sedutores e criativos do nosso ensino básico e secundário são fagogitados pelos senhores que os nossos votos colocaram nas cadeiras do ministério da educação.
cada um que vem, destrói o que o anterior fez - é a sede de apresentar serviço.
apresentam serviço...
e
a arrogância do poder impede-os de dialogar, de solicitar um parecer, de avaliar...
sempre foi assim!...
dizem alguns - acomodados.
e
ninguém diz mais nada.
ninguém questiona.
tão pouco os que deram horas e horas de trabalho gratuito para que as expressões artísticas se implementassem no espaço escola.
acabou, portanto, está dispensado dos nossos serviços, o senhor é contratado... bem vê...
(e nem sequer vale a pena agradecer, para quê? foi um serviço patriótico e a pátria sempre foi merecedora dos esforços dos seus cidadãos. tudo pela nação!...)
no que respeita às várias experiências no campo do teatro-educação, assim foi (também) - desde os tempos da opção de teatro no 9º ano de escolaridade, passando pelas oficinas de expressão dramática do secundário. tudo acabou sem uma pergunta, sem um diálogo com os dinamizadores (vários) que entraram pelas portas das escolas.
sem, enfim, uma avaliação das acções.
acabou
e
ponto final.
o confronto com as artes, com a criatividade, com espontaneidade... sempre incomodou aqueles que gerem o país.
é.
é assim.
e
pronto.
agora vem aí uma nova ideia, a do ensino artístico no 1º ciclo do ensino básico - um pouco na sequência da ideia do inglês ao mesmo nível de ensino...
mas
se o projecto do inglês não está cumprido... (e para quê cumprir um projecto com língua estrangeira quando a língua materna é descurada e maltratada?)
... vamos entrar noutra aventura sem perspectivas? para quê?
ah!...
para que as criancinhas estejam muitas horas na escola.
para fazer o favor aos encarregados de educação...
- com estas novas medidas podem depositar os vossos filhos às sete e meia da manhã e vir levanta-los às sete da tarde. sim. depois das compras no centro comercial.
e quem vai ser o professor de música, de teatro, de dança, de pintura, de cerâmica?...
resposta:
bem... os recursos locais...
muito bem.
está bem.
certo!...
e a formação? e a habilitação?
como sempre:
problemas menores...
entrementes os espaços universitários abrem licenciaturas, formam professores nas diversas expressões artísticas. dizem que "os meninos" vão ser professores, vão ser integrados numa carreira docente...
que bom.
- e se o senhor professor de física-quimica (por exemplo) tiver na escola onde está colocado um horário zero?
então o senhor professor de física-quimica vai a uma acção de formação de qualquer expressão artística - com créditos, claro - e passa a ocupar o espaço do jovem saído de uma universidade...
tão simples quanto isso.
claro que o inverso não é, de todo, possível.
onde é que se viu um professor especializado no ensino artístico a leccionar física-química?...
estamos num país do terceiro mundo, ou quê?...
manuel almeida e sousa
COMENTÁRIOS
Manel.
Boa malha.
O texto retrata bem o país.
Mas... enfim, outra coisa não seria de esperar de ti - afinal são muitos kilómetros da estrada desse paradigma que se chama expressão dramática e agora querem que seja teatro-educação(?). Sabemos lá o porquê dessas coisas...
Falta dizer que a experiência OED (secundário) não foi avaliada pelo ministério da educação do nosso país, mas foi e está a ser proposto pelo ministério da educação espanhol. Eles, os espanhóis, querem o modelo português para o secundário (já formam possíveis professores) e para o ensino básico vão optar pelo projecto inglês. Recusaram o modelo português do básico por não garantir continuidade e ter um programa feito em cima do joelho... (estive aqui a falar com o Diego. Foi ele quem me disse).
Lamento que o texto seja omisso no que respeita aquilo que é a "carreira académica" do teatro em Portugal (não deu para tudo, claro).
Hoje eu sou doutor em drama (graças à tua influência enquanto meu professor do 9º ano) não porque tenha o curso da Escola Superior de Teatro, mas pela minha outra licenciatura a de direito... portanto, o meu doutoramento com tese em "estética teatral" só foi possível por ser advogado, não por ser actor (au Portugal c'est comme ça).
Hoje, na universidade americana onde sou prof., resolvi fazer uma pesquisa pelas práticas da expressão dramática e, casualmente, vi o blogue - o teu nome levou-me a ler o que por lá se diz. E é triste. Muito triste. Ver que no meu país (no que respeita ao ensino artístico) está pior que no tempo da reforma do Veiga Simão (os valores culturais da democracia não chegaram ainda ao ensino, é isso?... ou não chegaram, mesmo, a Portugal?).
E seria de esperar outra coisa dos senhores que se apossaram dos meios de decisão?
Porque não falam disso?
Para que serviu a associação portuguesa de expressão dramática?
Porque não falar de quem é - hoje - responsável (melhor; irresponsável) e deixa cair (sabe-se bem porquê - ou calcula-se) a vertente dramática no ensino secundário? (que outras prioridades para esses senhores?).
Para quando, afinal, o fim desse 3º mundísmo e, sobretudo, desse compadrío que controla (ainda) a linguagem teatral do meu (ainda) país?
E já agora, por mera curiosidade; quem são os docentes - hoje - do conservatório e dessas universidades que resolveram abrir cursos na área do teatro?
Seria interessante abrir espaço a esse tipo de informação. Nós por cá (entenda-se fora da fronteira) já somos bastantes e gostaríamos de saber (não. Não é piada, mas pode vir a dar vontade não de rir, mas de chorar).
Gonçalo B. Santos
E assim é...A Arte tem a ver com o engenho para transformar os momentos mais cinzentos em caldeirões fervilhantes e isso assusta a "mediocracia".Não se faz porque é diferente, não se avalia porque pode ser aterrador ou contagiante e isso é perigoso!A criatividade deveria ser ponto fulcral da educação mas é bem mais tranquilizante o aluno que repete em vez do que propõe...É assim mas não tem que se manter, tenho trabalhado com pouca conta e todo o risco para demonstrar que na essência do Teatro está o melhor laboratório de vida, com problemas para resolver, equipas para funcionar, ideias para acontecer e finalizações para sentir a gosto de construir!Defendo que se deve trabalhar por Projecto, e mesmo neste momento estou a tentar encontrar um solução para um desses momentos der ocupação de crianças e espaços onde quase sempre falta a alma e sobram meninos cansados de nada saborearem e tanto vislumbrarem!!!Fui tua colega numa pós-graduação na faculdade de Letras e ontem mesmo me lembrei de ti!A Unesco aconselha as escolas a rápidamente chamarem artistas para com eles trabalharem e em Portugal parece que ainda há um estranho medo da subversão da Arte e da Criatividade por vezes por culpa de alguns exemplos de excesso de improviso.O método e fundamental na criação, como já disse e sinto na feitura de um projecto teatral ou para-teatral todas as competências são trabalhadas, como num momento de Vida!Rita Tormenta
By tormentaemcopodagua, at 6:22 PM
18.12.05
O ESTADO das COISAS - Fernando Rebelo

Na proposta do actual Governo para uma nova Lei de Bases do Sistema Educativo, podia ler-se o seguinte no ponto III da Exposição de Motivos: “A missão fundamental da educação é hoje, mais do que nunca, fornecer a cada pessoa os meios para o desenvolvimento de todo o seu potencial, para o exercício de uma liberdade autónoma, consciente, responsável e criativa. Há, assim, que assegurar uma educação que prossiga conjugada e sequencialmente as finalidades do aprender a ser e a viver juntos, do aprender a estar, do aprender a conhecer, do aprender a fazer, do aprender a pensar e aprofundar autonomamente os saberes e as competências.”Mais à frente, no Capítulo II , Organização do sistema educativo, na Secção II, Educação escolar, Subsecção I Ensino Básico, poder-se-á ler a alínea g) do Artigo 12º, Objectivos do ensino básico: “Promover as actividades manuais e a educação artística, de modo a sensibilizar para as diversas formas de expressão estética e a detectar e estimular aptidões nestes domínios;”. Logo aqui nos assaltam algumas questões: quem e como poderá detectar aptidões nestes domínios entre os alunos que frequentam este ciclo de ensino? O que se entende por «aptidão» em termos da prática teatral? E, assim, parece que voltamos à questão exposta páginas atrás: a da formação inicial de professores.Continuemos a análise do documento. No Artigo 13º, Organização do ensino básico, podemos ler na alínea a) do ponto 3.: “Para o primeiro ciclo, o desenvolvimento da linguagem oral e a iniciação e progressivo domínio da leitura e da escrita, das noções essenciais da aritmética e do cálculo, do meio físico e social e das expressões plástica, dramática, musical e motora.”; logo a seguir, na alínea b), lemos: “Para o segundo ciclo, a formação humanística, artística, física e desportiva, científica e tecnológica e a educação motral e cívica,(...)”.
Seria agora o momento de analisar os ‘curricula’ deste grau de ensino a fim de poder avaliar com rigor aquilo que, na prática, significam estas palavras. No 1º ciclo mantém-se a presença da expressão dramática, durante os quatro anos de duração desse ciclo, mas exactamente como se encontrava nos anteriores ‘curricula’. É ao professor que cabe gerir aqueles conteúdos, as escolas não têm meios para contratar docentes especializados naquela área e, amargamente, teremos que concluir com um «tudo como dantes, quartel general em Abrantes...». Quanto ao 2º ciclo, o Teatro poderá aparecer como oferta de escola se na mesma escola houver no quadro de nomeação definitiva de docentes alguém que se disponha a assegurar a leccionação dessa disciplina. Parece que, desta forma, se desperdiçará irremediavelmente a oportunidade de “detectar e estimular aptidões” no domínio das artes. Os nossos alunos, na sua grande maioria, chegarão aos seus 12-13 anos de vida completamente alheios aos fenómenos estéticos e artísticos; o sistema educativo do qual fazem parte não soube, não pôde ou não quis dar a devida atenção a esta questão. A formação destas crianças é pobre, porque incompleta. A Escola parece, assim, surgir cada vez mais virada para uma lógica de mercado e não para a formação integral do indivíduo. Passemos à Subsecção II, Ensino secundário e vejamos o que diz a alínea c) do Artigo 15º, Objectivos do ensino secundário: “Desenvolver as competências necessárias à compreensão das manifestações culturais e estéticas e possibilitar o aperfeiçoamento da expressão artística;”. Como se poderá aperfeiçoar, questionamo-nos nós, aquilo que não se praticou antes?

A realidade é esta: também no 1º ciclo do ensino secundário o Teatro poderá surgir como oferta de escola; em termos de docência, a situação é exactamente a mesma que descrevemos para o 2º ciclo do ensino básico. A modalidade de leccionação é, porém, mais bizarra: nos 7º e 8º anos, os alunos que escolherem esta opção frequentá-la-ão durante uma parte do ano lectivo, na outra parte frequentarão outra opção; não existem programas emanados pelo Ministério da Educação e, no 9º ano, os alunos terão então, se assim o entenderem, a disciplina durante todo o ano lectivo; a carga horária da disciplina é manifestamente insuficiente: uma aula de duas horas, uma vez por semana. Este quadro é, de facto, grotesco. As expressões artísticas são, na verdade, tratadas como parentes pobres do sistema educativo. Cairão por terra, a nosso ver, as palavras que citámos no ínicio deste capítulo e que constavam da «Exposição de Motivos» que presidiam à formulação de uma nova Lei de Bases do Sistema Educativo. Naquilo que diz respeito às expressões artísticas e à sua efectiva presença no nosso sistema educativo nada mudou. Curiosamente, uma instituição de ensino superior pública mantém há alguns anos uma Licenciatura em Estudos Teatrais com uma vertente, em termos de saídas profissionais, destinada ao ensino. A instituição tem nome, claro, chama-se Universidade de Évora. Dos alunos que já concluíram a referida Licenciatura contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que se encontram a leccionar nas nossas escolas – quer do ensino básico, quer do ensino secundário. Por outro lado, e para concluir, refira-se que a presente Reforma curricular eliminou dos ‘curricula’ uma disciplina que existiu durante mais de uma década – Oficina de Expressão Dramática -, disciplina essa que foi leccionada em mais de duas dezenas de escolas a nível nacional e, na qual, o Ministério da Educação investiu em termos de equipamentos técnicos alguns milhares de, na altura, escudos. Essa disciplina nunca foi, tanto quanto sabemos, objecto de uma avaliação séria e rigorosa. No quadro da nova Reforma foi pura e simplesmente eliminada como se se tratasse de algo de somenos importância... Este é, pois, o estado em que as coisas estão.
3. CONCLUSÃO (ou não...) Numa das suas obras Peter Brook diz: “o teatro é, para aquele que o faz, um exercício permanente. Representar, aceitar o desafio do jogo, é, assim, aceitar melhorar-se através do prazer, o que faz do teatro um instrumento fantástico da educação. O aluno sentado na sala de aula, escutando, não está em situação que o leve a descobrir as suas potencialidades. Pode fazê-lo no desporto, mas isso não toca senão uma parte da sua personalidade.”. Depois destas palavras poderíamos dar por concluído este trabalho. Na verdade, pouco mais haverá a acrescentar quanto à importância que, achamos, o Teatro deve ter no nosso sistema de ensino. Insistimos, no entanto, na falha grave que é a sua ausência ou, se quisermos entendê-lo assim, na sua presença envergonhada. Não faz parte do âmbito de um trabalho académico propôr soluções, mais ainda sendo essas soluções do foro de uma política educativa. No entanto, consideramos que tratando-se de um trabalho para uma das disciplinas de um Mestrado em Educação Artística mal seria que não se questionasse a presença, ou não, do teatro no nosso sistema educativo. Não se vislumbra, pois, uma conclusão. Somos apenas uma voz “a clamar no deserto”, nada mais. Literalmente, um deserto cada vez mais árido de uma Escola cada vez mais inóspita quanto à criatividade.
NOTA SOBRE O ENSINO ARTÍSTICO - Fernando Rebelo

A ESTRADA DESERTA ou SE ELES A DESCOBREM AINDA NOS VÃO COBRAR PORTAGEM... (1)No princípio, até brincávamos...“ És professor de quê?...”“ De OED.”“ Que é isso?...”Nunca a estranheza deixou de ser óbvia. Um professor de uma disciplina chamada abreviadamente OED (Oficina de Expressão Dramática) era tido como uma criatura rara, pelo menos à atmosfera da Escola. Mesmo que esse professor já fizesse parte do quadro de professores da dita Escola. “Isso é teatro?...”“Pois. É isso...”E ficávamos por ali, para não dar mais explicações. Estivemos na Escola por favor, toleraram a nossa presençaParentes pobres. Aqueles que leccionaram OED nas nossas escolas sentiram-se sempre na pele de alguém que era tolerado. Legitimados e, como tal, gozando de moderada aceitação por parte da família. Éramos objecto de um sorriso de condescendência, um “faça favor de entrar” com um sorriso cínico e pouco mais.Com boa vontade e boa fé, os professores da disciplina de OED foram trabalhando à mercê de tudo o que lhes entenderam fazer os poderes instituídos.Para os lados de onde o Alentejo fica mais além, alguém se lembrou de criar a estranha ideia de que uma Licenciatura em Estudos Teatrais conferia o supremo dom a que qualquer comum mortal pudesse vir a exercer uma profissão de docente na disciplina de OED ou de algo que lhe valesse.Esqueceram-se, por acaso, que em Lisboa valem as suas próprias leis, que ora são assim e logo assado... E, diga-se em abono da verdade, calaram-se quando viram (terão mesmo visto?...) que tudo se desmoronava.Estivemos a falar de Educação, de sistema de ensino?Claro que sim.Isto aconteceu em Portugal há cerca de uma dúzia de anos atrás.Fez-se uma Reforma do Sistema Educativo e há uns meses atrás fez-se uma nova reforma sem que a avaliação da anterior Reforma tenha sido feita na totalidade. Gastaram-se dinheiros públicos em investimentos que foram mandados parar sem quaisquer explicações. Que se lixe o dinheiro! O Ensino público não pode nem deve estar subjugado a uma lógica puramente mercantil. Claro que sim.E já agora acrescente-se que, sobretudo, o Ensino público não pode nem deve estar submetido a uma lógica de políticas.É um assunto de Estado, não um assunto de programas partidários.O Ministério da Educação é um organismo cada vez mais anquilosado e obsoleto. Num país com cerca de 11 milhões de almas – metade das quais anda afastada da Escola – aquele organismo governamental tornou-se numa máquina de desresponzabilização. Uma espécie de avestruz. Sempre que surge um problema enterra a cabeça na areia e murmura: “Não me venham pedir responsabilidades...” e, em seguida, retira uma lei ou uma reforma ou novos programas do seu infindável e lustroso seio e ali fica toda a sociedade entretida a ler, a tentar decifrar aquele palavreado em ‘eduquês’ e, enquanto isso, a avestruz lá vai à sua vida, tranquila e satisfeita.Não basta produzir legislação. Importa que as leis tenham em conta as realidades e as prioridades de um país. Um sistema de ensino é pensado – desde a base até ao topo – em função daquilo que se considera prioritário e fundamental em termos de um Estado moderno, avançado e integrado num quadro de Estados chamado União Europeia. O ensino artístico no nosso sistema de ensino nunca existiu. Esta é a verdade. Educação Musical?... Onde? Educação Visual? Que é isso? Estamos há várias décadas com um sistema de ensino que, no papel, é uma coisa e, no terreno, é outra completamente diferente. Ler – Escrever – Contar: esta continua a ser a divina trindade do nosso sistema de ensino. A actividade docente obedece a uma lógica corporativista e é avessa a qualquer mudança. Cumprir programas, preparar para exames – estes são os altos desígnios a que aspiram os nossos docentes do pré-primário ao 12º ano. Não há tempo para mais nada. Expressões? Que raio será isso?Olhem para o horário de um mancebo com 14 anos, no 8º ano de escolaridade. Passa 5 dias por semana na escola, em aulas, cinco manhãs inteiras e duas tardes até às 18.45 horas. Aulas de Português, de Matemática, de Área de Projecto, de Estudo Acompanhado... Horas e horas seguidas. O mancebo, que de parvo não tem nada, já percebeu que há algumas aulas da tanga. É só estar lá, é só uma questão de ir. A Escola, para ele, é um lugar onde se vai para, nos intervalos estar com os amigos, estar numas salas a ‘ter aulas’. O mancebo chegou aos 14 anos de idade e a sua formação estética é nula: ouve a música que todos ouvem e essa é que é boa, foi a museus em visitas de estudo mas nem se lembra do que viu, foi ao teatro com a setôra de Português ver não sei quê, com nem ele sabe quem, foge dos livros a sete pés, jornais lê regularmente um dos três diários desportivos que neste país se publicam, até vai ao cinema ver o que de pior se faz nos Estados Unidos. Ao lado de qualquer outro mancebo europeu da sua idade não se lhe nota qualquer diferença. Exteriormente. É perigoso generalizar, mas o perigo real existe quando nos apercebemos que a generalização é tão vasta. Olhando à nossa volta reparamos que grassa a parolice e parece até que se cultiva de forma deliberada uma forma de ser e de estar cada vez mais ‘pimba’.Há cerca de três décadas atrás os pobres e os chamados ‘remediados’ tentavam elevar-se socialmente pela via do Ensino ou da Cultura. Havia efectivamente uma preocupação por ‘subir na vida’ e era através da Escola que essa ascenção era tentada. Os cursos nocturnos estavam cheios de gente que tinha trabalhado durante o dia, a figura do trabalhador-estudante era real. Desde a alfabetização, ao ciclo preparatório, dos liceus, à Universidade, houve gente que encontrou no sistema de ensino um modo de poder valorizar-se quer pessoal, quer social, quer profissionalmente. A Escola abriu-lhes portas para a Cultura: houve quem descobrisse a Poesia, outros a Música, outros, ainda, as Artes Plásticas, o Teatro. A sua valorização não se traduziu em acesso a bens materiais, passaram a dar atenção a outras coisas; libertaram-se, no sentido mais generoso da palavra.A Escola era vista como o sítio que permitia fazer a diferença. A maior parte desses tornaram-se melhores pessoas, cidadãos mais conscientes da sua cidadania, empenharam-se em causas, humanizaram os sítios em que habitavam, sem pedir nada em troca. É certo que continuaram a não dar importância a aspectos que lhes mereciam a importância que deveriam ter e, logo, começaram a ser olhados de lado. Com desconfiança. Os da Cultura não eram gente muito certa. O parolo se tem pela frente alguém que se expressa numa linguagem parecida com a sua mas com palavras estranhas aos seus ouvidos matarruanos começa logo a coçar-se e a sentir-se pouco à vontade. Olha-se para o gajo e vê-se uma barba descuidada, uma camisa a precisar de reforma, nem gravata, nem nada... Mau, Maria, que o gajo é um falinhas mansas... ´tás aqui, ´tás a levar com a enxada na cornadura... Ó mulher vai lá para dentro que isto é conversa de homens e você veja lá se desampara a loja que eu tenho mais que fazer...A Escola não soube acompanhar o país em que vivia, não percebeu que a democratização não passava pelo desleixo, pelo facilitar. A tampa nunca esteve no sistema educativo, quem lá estava deixou que o mesmo fosse prevertido de forma ignóbil. Era preciso mudar para que tudo ficasse pior ainda, para que os uivos lacinantes em prol do ‘isto d’antes é que era bom...’ fossem cada vez maiores e a Escola Pública chegasse onde chegou.
1975, 1980, 1990...Quê?! Já chegámos ao século vinte e um?!...Pois foi.Aqui no Sudoeste deste velhíssimo continente somamos já umas valentes centúrias de História. Levámos ciclicamente braços aos outros mundos. Escanzelados braços em busca de sustento, levados pela miragem da mudança de vida e desses mundos trouxemos os mesmos braços, mais nutridos, mais tilintantes de pulseiras e relógios, prontos a erguer betão, destros no fumegar dos escapes e hábeis a promover romarias e feiras fartas em foguetório, comezaina e cantorias rascas. O braço chorudo do torna-viagem tornou-se um marco a indicar o caminho: quem não alomba, não anda de Mercedes-Benz. O mote estava dado. Não tens dinheiro e ninguém te respeita, nem te considera, nem ouve o que tens para dizer. Quem não sabe fazer dinheiro, não presta para nada. Quando saí daqui, da terrinha, ia de mão à frente-mão atrás, era um zé-ninguém, um pobretanas que nem o nome sabia assinar. Hoje aqui me tens em cada Agosto: olha a fatiota, o sotaque, o chiar dos pneus, o luzir dos anéis nos dedos. Olha a minha ‘maison’. Dou dinheiro para a nova igreja, para a procissão, dou algum para a Junta de Freguesia. Sou um benfeitor, a bem dizer eu sou o Progresso.A ascenção social centrou-se na capacidade de fazer dinheiro. Aqueles a quem um dia chamaram ‘progressistas’ cansaram-se, compraram ‘jeeps’ e um monte algures no Alentejo. Hoje em dia, debruçam-se, curiosos, sobre a terra, em licenças sabáticas, como avestruzes envergonhadas dessa sua nova condição. De resistentes passaram a desistentes. O país real – o da telenovela e futebol, o do centro comercial e arraial nem se apercebe da sua existência. Não lhes liga pêvas. Está mais preocupado com outras coisas.O país vive, finalmente, a duas velocidades: de um lado, os que estão bem na vida e têm os filhos no ensino privado, pagam e reclamam, assumindo o direito de que o cliente tem sempre razão; do outro, a massa anónima e ressabiada que invade os centros comerciais aos fins de semana, lê as gordas de um dos três diários desportivos nacionais, consome novelas ou ‘filmes de acção’ e anda lixada da vida ‘por causa dos atestados médicos que os sacanas dos profs. metem’. São os utentes do nosso Sistema de Ensino Público. Hão-de constituir-se em associação, depois em Federação e, logo em seguida, serão uma Confederação para que sejam admitidos à mesa das negociações de um conflito que será resolvido quando o bom-senso imperar. O actual Sistema Educativo vive de ‘fait-divers’. É um conflito permanente e insanável, feito da discussão de acções de guerrilha. O Presidente de um Conselho Executivo gasta horas a falar com uma Associação de Pais que se arroga a capacidade de discutir assuntos do foro pedagógico. O Conselho Pedagógico de uma Escola reserva lugares para alunos, pais e funcionários com direito a voto. Discutem-se colocações de professores, coisas corporativas. Contam-se tempos de serviço, habilitações, graduações, acções de formação. Coisas de funcionário cansado que vai riscando no calendário os dias que faltam para ficar em casa a tratar do canário.O cidadão comum, preocupado em garantir a subsistência, alarma-se e incomoda-se quando não encontra sítio onde albergar as crias, passado que foi o período estival. Tem que ir trabalhar, ganhar a vida e nem o infantário, nem o adolescentário lhe mostram sinais de abrir as portas. Fica à espera, recorre a expedientes vários e nem reclama. Tudo se há-de compor. A Escola abriu. Ainda bem. Está tudo a funcionar no melhor dos mundos possíveis. Candidamente entregamos os nossos rebentos nas mãos acolhedoras da Escola. Estuda para o teste. Tens teste amanhã. Vou pôr-te na explicação. Podes passar de ano ‘cortado’ a quantas disciplinas?...O nosso mancebo sorri. Há-de andar na escola até ter, pelo menos, 18 anos. Dela – Escola – não espera grande coisa. Há outros caminhos. Ele sabe que sim. Se alguém lhe disser que a Escola visa, entre outras coisas, contribuir para a sua realização através do pleno desenvolvimento da sua personalidade, da formação do seu carácter e da sua cidadania, dando-lhe uma preparação para uma reflexão consciente sobre os valores espirituais, estéticos, morais e cívicos e que também lhe proporcionará um equilibrado desenvolvimento físico, o nosso mancebo há-de achar que estamos a gozar com ele. Estamos na Europa civilizada. Hoje são vésperas de 2005. Ainda bem que não vivemos no hemisfério Sul. Aqui, estamos com mais de 8 séculos de história no nosso canto do Sudoeste deste velho continente. Tiveste as aulas todas? Tens testes marcados? Sempre vão fazer exames no 9º ano?...No espelho retrovisor do nosso carro assoma uma cara que, sem nos responder, trauteia uma canção que lhe escorre pelos auscultadores do ‘walkman’.O nosso mancebo hoje, aqui, neste nosso canto do Sudoeste do Velho continente, tem tudo: a net, o telemóvel, fronteiras abertas, liberdade, acesso a bens materiais. Na sua frente ergue-se uma estrada larga, larguíssima, mas deserta... Sem ideias, sem valores, sem referências. Há-de passar por toda a estrada sem que nela deixe a sua marca, sem que lhe ocorra sequer parar por momentos para contemplar a forma bizarra de uma nuvem, um vulto na paisagem, um assobiar mais agudo do vento. O dinheiro que leva nos bolsos há-de gastá-lo em paragens breves para satisfazer necessidades tão básicas como a fome, a sede, o sono ou a vaidade e, ainda, para pagar escrupulosamente todas as portagens que se lhe deparem ao longo do trajecto.
(1) (publicado na revista BICICLETA nº 8 - edição de Mandragora - mandragorarte@netscape.net)
8.12.05
O SER E O TER - reflexão desencantada acerca da educação estética e artística no actual sistema de ensino - Fernando Rebelo

De 74 até aos nossos dias tudo se transformou radicalmente entre nós: a massificação do ensino concretizou-se, as universidades floresceram um pouco por todo o país, o fim da censura permitiu que houvesse um significativo incremento da edição de livros, o aparecimento de mais imprensa escrita, mais produções teatrais, mais cinema, mais arte. O próprio progresso e desenvolvimento da rede viária permitiu abater o fosso entre o litoral e o interior e tornou mais fácil a possibilidade de acesso das populações do interior aos bens culturais e da civilização.
De que país falo? Do nosso.
Temos, hoje em dia, um lugar lado a lado com os outros países europeus. Deixámos de ser e estar “orgulhosamente sós”.
É certo que viver na periferia da Europa tem os seus custos, mas a Europa percebeu isso perfeitamente e foi generosa. Nunca, desde 1697, tinha voltado a entrar tanto dinheiro em Portugal. Naquela data, era o ouro que nos chegava do Brasil. Aqui há uns anos foram os euros... E se a História não se repete o mesmo não se poderá dizer em relação à ganância e imbecilidade humanas, essas são as mesmas, não mudam e hão-de repetir-se pelos séculos dos séculos.
Tivemos de facto muito dinheiro, um rio caudaloso que inundou o país. Dinheiro que se destinava basicamente a colocar-nos mais à frente, dinheiro que se destinava basicamente a libertar-nos do atraso estrutural em que nos encontrávamos comparativamente aos outros países europeus. Foi um esforço da Europa, uma forma delicada de pedir ao parente pobre, de maneiras e hábitos rudes, inculto e bronco que o deixasse de ser, que parasse de a envergonhar.
Ora, é sabido que não se passa dinheiro para as mãos de quem se habituou a viver de expedientes. A nossa generosa e, diga-se de passagem, excessivamente centrada em si própria Europa esqueceu-se daquela máxima oriental: “Se vires um pobre com fome à beira de um rio não lhe dês um peixe, dá-lhe uma cana e ensina-o a pescar.”
Desbarataram-se os fundos europeus. A factura ainda está por pagar. A Europa foi generosa mas vai cobrar com juros...
Adiante.
Temos mais algumas coisas, é certo. Mas será que somos melhores?
A Escola que hoje temos afastou-se da órbita desta lei, tomou um rumo desordenado e confuso. Foi sendo reformada ao sabor da alternância política, por impulsos, por paixões, como se fosse um terreno fértil sujeito às excentricidades dos agricultores que dele se apossavam. Quantas mais experiências se iam fazendo menos fértil se tornava o terreno. Os frutos que se iam colhendo não tinham grande qualidade, eram escassos. A Escola – e estou, naturalmente, a falar da Escola Pública – foi perdendo importância e, sobretudo, credibilidade.
Vamos aos factos: em 1992/93, por via da reforma curricular do sistema educativo surge, como que em substituição da anterior disciplina de Teatro – oferta de Escola para o 9º ano, uma disciplina de opção, integrada na componente de formação tecnológica, também oferta de escola, denominada Oficina de Expressão Dramática, que seria ministrada em três blocos: no 10º ano, no 11º ano e no 12º ano. Logo aqui surgiram as primeiras dificuldades:
1. A que alunos se destinava esta oferta? A todos aqueles que estivessem inscritos nos CSPOPE, independentemente do Agrupamento curricular em que se encontrassem. A realidade foi outra. Só aos alunos da área de Humanidades ou de Artes as escolas permitiram o acesso à disciplina, salvo algumas raríssimas excepções em que a mesma foi efectivamente leccionada a alunos de outras áreas.
2. No 10º ano, os alunos dos agrupamentos de Humanidades tinham que frequentar a disciplina de Métodos Quantitativos e dada a carga horária lectiva semanal ficavam impossibilitados, em termos legais, de se inscrever na disciplina de OED, no âmbito da formação tecnológica, uma vez que esta tinha uma carga horária de 6 horas semanais, o que se traduzia por estes alunos terem semanalmente mais 3 horas de aulas do que os seus colegas de outros agrupamentos. Em alguns casos, mediante autorização dos pais, foi possível contornar esta lacuna e efectivar a oferta de OED.
Mais... Quando tudo parecia indicar que o ME finalmente resolvera dar atenção à educação estética e artística e, desse modo, colmatar as sucessivas falências e continuadas faltas verificadas ao longo do percurso escolar de algumas gerações de alunos no âmbito de um verdadeiro e eficaz ensino estético e artístico; quando se pensou que o ME estava efectivamente interessado em seguir à risca o espírito da LBSE de 1986 e quando se começaram a sentir na prática os efeitos, logo se percebeu que quem – alheado da realidade – se dispôs a programar uma disciplina estava a contribuir para algo que parecia ser e, no fundo, não era. Como, aliás, se veio a verificar.
Para justificar a inovação e o desejo de mudança, o ME abriu largamente os cordões à bolsa, equipou as escolas às quais concedeu autorização para oferecer esta disciplina, enviou inspectores que verificaram a existência ou não de condições físicas para que as escolas pudessem oferecer a disciplina, os equipamentos chegaram atempadamente (órgão de luzes, rack, projectores, cabos eléctricos, tripés, aparelhagem sonora), largas centenas de contos foram gastos em equipamentos. Escolas secundárias de Viana do Castelo, Aveiro, Guimarães, Porto, Coimbra, Marinha Grande, Almada, Seixal, Setúbal, Alcochete, Lisboa, Loures, Portalegre, Cascais, Évora, Santo André, Faro, Albufeira, etc. tiveram a disciplina, centenas de alunos experimentaram, no verdadeiro sentido do termo, o contacto com uma disciplina artística, alguns deles descobriram vocações através da frequência de OED.
No entanto, o ritmo da alternância política ia introduzindo experiências. Chegou-se ao ponto de, em 1995, um Ministro encarar a possibilidade de entregar a leccionação da disciplina a licenciados em Educação Física! Isto ao mesmo tempo em que a Universidade de Évora abrira uma Licenciatura em Estudos Teatrais cuja saída, originalmente, se destinava a formar professores para esta área!
Confusos?... Ainda vamos a meio da narrativa. E olhem que a estou a encurtar de propósito e vou omitindo outros episódios não menos dignos de registo.
Depois, veio um período delirante como aquele em que se propõe, na abortada reforma proposta pelo último governo de Guterres, a criação de um curso de artes do espectáculo para o ensino secundário. Aqui, o episódio conclui-se com a saída inesperada de cena de Guterres e tudo acabou por ficar no papel. Ainda bem que aqui o efeito do ‘deus ex machina’ funcionou. Aquele curso era uma aberração, um completo desconhecimento do que era a realidade da nossa escola.
Até que chegamos aos nossos dias: estamos actualmente no primeiro ano de implementação da reforma do sistema curricular do secundário, o 3º ciclo também sofreu alterações no sistema curricular.
Tratemos um de cada vez: no que toca ao ensino secundário, desapareceu de todo a disciplina de OED. Sem qualquer explicação, sem que tenha sido objecto de qualquer avaliação, como num passe de mágica. Foi uma morte anunciada mas ninguém deu por ela, a não ser aqueles que nela investiram mais de uma década de trabalho, esses ficaram a clamar no deserto tomados de uma dúvida: aqueles equipamentos continuarão nas escolas ou será que as escolas os deverão devolver ao ME? Nem seria certo que pensassem em mais nada. Quanto aos licenciados que a Universidade de Évora vai fazendo sair em cada ano o único que nos ocorre sugerir é que tenham o mesmo destino que os equipamentos: depositem-se os licenciados no ME juntamente com os projectores, os órgãos de luzes, etc. São tão obsoletos e desnecessários quanto os equipamentos pagos com o dinheiro dos impostos de quem trabalha.
Quanto ao 3º ciclo, o panorama não é mais animador: existe, de facto, uma opção chamada Teatro que é oferta de Escola – o que significa que não existe em todas as escolas – e que abrange os três anos de duração deste ciclo do nosso sistema de ensino. Mas, atenção! A escola só poderá oferecer esta disciplina se nos seus quadros efectivos de docentes houver alguém que se disponibilize para o fazer. Qual é o perfil do professor que leccionará esta disciplina? Honestamente não vos sei dizer. Digo-vos, porém, que se presta a tudo. Está instaurado o espírito do ensaiador do grupo cénico, voltámos às récitas de curiosos.

O estado de desencanto em que me encontro impede-me de partilhar convosco uma experiência que me fez ter uma outra visão da Escola: uma escola equilibrada, moderna, inovadora e criativa.
Nem sequer vos falei do panorama que encontramos no 1º e no 2º ciclos do nosso sistema de ensino. Quanto às expressões artísticas estamos no vazio, no nada absoluto. Elas estão inscritas nos programas – pelo menos a nível do 1º ciclo – mas, entre nós, estabeleceu-se a ideia de que os nossos meninos e meninas hão-de passar quatro anos das suas vidas a aprender a ler, escrever e contar. Tudo o resto são coisas de pouca ou nenhuma importância. Ao menos que eles e elas, todos saíssem desse ciclo de escolaridade possuidores dessas três competências!
Andamos a querer tapar o sol com a peneira e dizemos que sim, que os nossos meninos e meninas que frequentam o sistema de ensino público experimentam o contacto com as expressões artísticas e sabemos que isso não é verdade...
Sinto-me alguém umbilicalmente ligado ao teatro que, por circunstâncias várias, veio parar à Escola e dela fez a sua principal actividade em termos profissionais. Desenvolvi uma ideia de Escola fruto da minha actividade enquanto professor de OED. E, paulatinamente, um ser omnipotente chamado ME foi-me tirando o tapete, foi roubando o colorido à Escola e tornando-a cada vez mais cinzenta. A Escola, tal como a vejo hoje, (e agora fala também o pai...) tornou-se um lugar com pouco interesse. A sala de aula é cada vez mais desinteressante e cada vez menos espaço de descoberta, de experimentação, de criação.
Para onde caminhamos?
Sempre que penso no estado do nosso sistema educativo ocorre-me a imagem de um quadro de Bruegel baseado numa parábola bíblica (Mateus 15:14) sobre o cego que conduz outros cegos: “Deixai-os: são cegos, guias de cegos. Ora se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco.”
Registe-se, para terminar, uma nota que não será tão à margem quanto isso: a casa onde Garrett viveu os seus últimos dias encontra-se em vias de demolição. O MC, após pressões, devolve a questão para o IPPAR, este, por seu turno, atira com a coisa para a CMLisboa que, por sua vez, emite uma declaração em que se fala de Pilatos.
Como vêem, as Sagradas Escrituras dão para tudo.
Este é apenas mais um episódio da sensacional novela da vida real de um país chamado Portugal.
Gostaria que o juntassem à vossa reflexão sobre a forma como tudo aquilo que poderia constituir um património cultural, um meio de elevação, é constantemente desvalorizado pelos poderes instítuidos.
Sei, no entanto, aquilo que gostaria que a Escola fosse.
E não é.
Quando o há-de ser? Não sei. E, além disso, quem se importaria em sabê-lo?...
Fernando Rebelo- Abr.05
http://geocities.yahoo.com.br/theatron_associacao/oser
